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Serra x Marta

Leia artigo de Emir Sader publicado na Agência Carta Maior:

No Serra não votarei, em primeiro lugar, porque ele traiu a minha geração. Nós o elegemos presidente da UNE, objetivo que ele tanto buscou. Logo em seguida veio o golpe militar de 1964, ele decretou greve geral e imediatamente foi embora do país, deixando a resistência estudantil sem direção. Perguntem-se para si mesmo onde estava Serra nos anos mais duros da luta de resistência contra a ditadura. Perguntem-se onde estava ele nos primeiros dez anos de resistência ao terror militar, ele que detinha o cargo mais algo do movimento estudantil na época e sabia, como sabíamos, que a possibilidade de um golpe militar era iminente?

A partir dali deixei de considerá-lo uma pessoa séria, de caráter, em que se poderia confiar. No seu retorno ele confirmou que é um aventureiro. Deixou sistematicamente os cargos para os quais tinha sido eleito, para ocupar outros, que atendiam mais a suas ambições irrefreáveis de poder (quem o elegeu como senador, teve que ser representado por um grande empresário a quem nem sequer conhecia. Agora, vai correr o risco de entregar São Paulo de volta para um ex-secretário de Celso Pitta?).

Não votarei no Serra porque não quero em São Paulo as políticas de dilapidação dos bens públicos, no maior saqueio que o Brasil sofreu, com as privatizações do governo FHC, do qual ele participou. Não quero em São Paulo o maior processo de privatização da Educação, levada a cabo no governo FHC do qual Serra participou. Não quero para São Paulo a política educacional do governo do Estado, nas mãos de marqueteiro da auto-ajuda. Não quero a política truculenta de segurança pública do governo do partido de Serra.

Não votarei no Serra porque tudo o que ele propôs é manter algumas das políticas da Marta. Nesse caso, ninguém melhor e mais confiável do que ela para manter e aprofundar essas políticas. Não votarei no Serra porque sei que ele não ama São Paulo, ele ama o poder e a si mesmo. Por tudo isso, ele merece ser derrotado.

Mas não votarei na Marta. Gosto de suas políticas. Sei que seu governo é de esquerda, porque fez uma reforma tributária para financiar o melhor conjunto de políticas sociais no Brasil, aquelas que eu gostaria que o governo federal estivesse colocando em prática. Prefiro os CEUs e a política de Maria Aparecida Perez na Educação às de Gabriel Chalita. Quero que se mantenham e se estendam as políticas de Marcio Pochmann, de Aldaíza Sposati, de Nadia Campeão, as políticas de Transporte e de Cultura. Quero que se avance na humanização de São Paulo. Considero que o governo de Marta é o melhor que a cidade já teve.

Mas não votarei na Marta, única e exclusivamente porque estou vivendo no Rio de Janeiro e meu título não é de São Paulo. Senão votaria para que São Paulo tenha mais quatro anos de prioridade do social, para que não se interrompam as políticas que privilegiam os mais necessitados, os mais carentes, os mais explorados, os mais ofendidos, os mais oprimidos, os mais humilhados. Votaria na Marta por eles e por todos nós. Votaria na Marta porque não deixei de saber reconhecer o que é direita e o que é esquerda – olho para o conteúdo social das políticas e reconheço o Norte a seguir. Em São Paulo, hoje, não tenho nenhuma dúvida onde está a esquerda e onde está a direita. Voto – e luto – por aquela e contra esta – sempre.



Emir Sader, professor da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), é coordenador do Laboratório de Políticas Públicas da Uerj e autor, entre outros, de “A vingança da História".

Copiado por someone 01h18

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